Bilinguismo - Barreira ou Facilitador?

Bilinguismo – Barreira ou Facilitador?

Dado que a globalização mundial torna o acesso às várias línguas mais facilitado, em parte devido à circulação de pessoas pela migração, surge a necessidade de desvendar dois desses mitos que assumem um papel influente na escolha ou rejeição do bilinguismo.

Estar exposto a duas ou mais línguas em idades precoces predispõe a criança a ter um atraso da linguagem.

Em todo o mundo ocidental ainda existem terapeutas e médicos que aconselham os pais de crianças que estão expostas a mais que uma língua a eliminar uma delas. Nestas situações os pais acabam por optar por deixar de expor a criança à lingua minoritária pois crêem que o dominio da língua que é utilizada no ambiente global lhes trará mais oportunidades. Esta ideia é facilmente aceite por se pensar ainda que o facto de a criança ouvir mais que uma língua levará a que a mesma fique confusa e que por isso desenvolva atrasos linguísticos.

No entanto não existem evidências científicas de que o bilinguismo está associado a atrasos ou perturbações da linguagem, ou que o facto de se eliminar uma das línguas trará automaticamente benefícios na outra. Por outro lado, o término da exposição repentino de uma língua poderá trazer problemas emocionais e psicológicos pois sabe-se que a língua está ligada à emoção, ao afeto e à identidade.

Estudos recentes comprovam que o uso de mais que uma língua no dia a dia das crianças tem uma influência positiva no desenvolvimento de alguns processos cognitivos como a atenção seletiva e o controlo inibitório (capacidade para evitar elementos distratores), quando comparadas com crianças monolingues da mesma idade. Estas e outras funções executivas estão relacionadas com o planeamento de ações e a tomada de decisões mas, acima de tudo, com o convívio em sociedade.

O bilinguismo infantil não traz benefícios apenas para o desenvolvimento linguístico das crianças. Outros estudos evidenciam também resultados bastante positivos em tarefas não linguísticas relacionadas com o controlo para inibir informações distratoras, o que traz benefícios claros para a atenção seletiva e sustentada necessária para o desenvolvimento cognitivo e escolar das crianças.

O uso das duas línguas na mesma frase indica que a criança não consegue distinguir as várias línguas.

Sabe-se que quando uma criança está a aprender duas línguas, estas passam por uma etapa de mistura entre as duas. Há quem diga que o facto de uma criança produzir palavras de ambas as línguas numa mesma frase revela a sua confusão linguística que se reflete na incapacidade de a criança distinguir as línguas entre si. Está provado, no entanto, que a utilização de duas línguas numa mesma frase por bilingues adultos espelha uma excelente competência linguística. Também se pode verificar que as crianças que usam palavras das duas línguas numa mesma frase acabam por produzir mais frases numa só língua o que demonstra claramente que são capazes de separar ambas as línguas.