Ontem, assim que o jogo terminou, uma mãe me chamou no meio da arquibancada. Estava aflita: “Andreia, você como psicóloga do esporte… consola a minha filha. Ela não para de chorar.” Naquele instante, eu não pensei em nenhuma teoria. Eu voltei para 1982.
Eu tinha praticamente a idade daquela menina quando vi o Brasil ser eliminado pela Itália. Doeu. E, curiosamente, eu ainda me lembro dessa dor mais de quarenta anos depois — com nitidez, com afeto e até com alguma gratidão.
“Não tenta tirar essas emoções dela. Porque sentir faz parte de quem vive.”
Foi o que eu disse àquela mãe. Nós, adultos, temos pressa de apagar a tristeza das crianças — como se cada lágrima fosse um problema a resolver. Mas o esporte nunca prometeu apenas vitórias. Ele também nos ensina a perder. E perder, quando acompanhado com presença e acolhimento, é uma das aulas emocionais mais completas que existem.
O que a derrota ensina (e a vitória não)
A tristeza de uma eliminação não precisa ser apagada: precisa ser vivida. É vivendo essa frustração, com alguém por perto que não a minimize, que a criança aprende que nem tudo acontece como queremos — e que dá para atravessar isso inteiro. Essa é a base do que, anos depois, chamaremos de tolerância à frustração, resiliência e maturidade emocional.
Daqui a alguns anos, aquela menina talvez nem lembre do placar. Mas vai lembrar de como era torcer com quem ela ama — e de que teve espaço para sentir. Isso vale para o futebol. E vale para a vida.